Boa equipa é boa marca

Conheci a banda Rush já tarde. Conheci-os pelo álbum Clockwork Angels há aproximadamente dois anos. Mal ouvi o álbum estava certo que era algo de especial e que se tratava de uma banda singular. Rapidamente se tornou num dos meus álbuns favoritos, fazendo com que o próximo passo fosse recuperar o tempo perdido e conhecer o portfólio da banda: 40 anos de atividade e 20 títulos lançados. À primeira vista um pouco assustador mas logo se tornou num passeio muito suave. Álbum após álbum compreendem-se as épocas que a banda atravessou. Começam com o hard rock (mantendo-se sempre como a sua espinha dorsal) e foram ao longo da carreira juntando outros ingredientes e experimentações: a progressão (na construção musical), o sintetizador, o reggae, a pop, o jazz, o instrumental, o eletrónico, e a atitude “don’t give a shit”.

A sua atitude foi mais notória aquando do lançamento do multi-galardoado 2112 em 1976. O quinto álbum da banda foi, antes do lançamento, considerado o último. O descrédito deveu-se ao facto de os álbuns anteriores terem tido pouco sucesso comercial. Começava a não justificar o contrato da editora com a banda. Sabendo disto, os Rush criaram sem quaisquer condicionantes. Não tentaram salvar a pele ao ir ao encontro daquilo do que a editora exigia e do que o público supostamente procurava. Não iam cair numa fórmula de sucesso e resolveram gravar a música em que acreditavam, mesmo que isso significasse o seu fim. Ignorando a pressão externa só tinham a pressão interna de quem não se perdoa se não levar em frente o que acredita. Neil Peart, baterista e letrista, sintetiza a postura da banda: “Independentemente do tipo de canções que escolhes tocar, estás a apostar a tua vida nelas. Para o bem e para o mal és aquilo em que acreditas. Ninguém pode ter a certeza da resposta mais correta nos vários universos aleatórios possíveis.”

Lançado em 1976, 2112 foi editado em vinil e cassete utilizando criteriosamente os lados A e B dos formatos. O lado A era um único tema de aproximadamente 20 minutos. Uma história sobre um estado totalitário e opressivo que determinava o conteúdo que as pessoas liam, ouviam ou viam. Um dia, um homem, descobre uma velha guitarra e aprende a tocar. Pensando que encontrou algo incrível decide apresentar a descoberta aos opressores. Ao sentirem-se provocados, os opressores decidem destruir a guitarra e acusar o homem de tentar contaminar novamente a sua civilização. Desolado, o homem viveu o resto da vida escondido. Uma história não só sobre a liberdade criativa mas também sobre a atitude dos Rush.

O momento acabou por se revelar o ideal já que o The Wall dos Pink Floyd sai em 1979, o Blade Runner de Ridley Scott em 1982 e anúncio da Apple 1984, dirigido também por Ridley Scott, logo a seguir em 1983. O solo era fértil para uma história assim, mas o risco de 2112 foi total. Assim que ouviu o álbum, a editora pôs as mãos na cabeça e decretou o fim da banda, mas a realidade era outra. Ao ser lançado, o álbum entrou para o famoso Billboard Top 100 no lugar 61, chegou a disco de ouro em 1977 e a disco de platina em 1981. Atualmente, só nos estados unidos, 2112 é tri-platina com mais de três milhões de álbuns vendidos. Um sucesso.

É difícil antecipar o que pode ou não resultar. Não existem fórmulas nem mecânicas que garantam o sucesso e a rentabilidade total de um investimento, mas existem crenças e orientações. São estas características que definem um trabalho. A estrutura do processo define a atitude que vai moldar o resultado apresentado. Os Rush acreditaram que se fosse intencional o público iria compreender e relacionar-se. Foi a sua crença e o público juntou-se à causa.

A partir do 2112, os Rush afirmaram-se com uma das bandas de referência mundial de rock. São reconhecida influência de bandas como Metallica, Foo Fighters, Smashing Pumpkins, Nine Inch Nails, Dream Theater ou Rage Against the Machine. São atualmente um grande nome com 40 anos. Uma marca forte, composta pelas mesmas três pessoas praticamente desde o inicio.

Em setembro de 2012, em entrevista aos Grammys, o baixista e vocalista Geddy Lee explicava o segredo da longevidade e sucesso dos Rush: “Obviamente, nós os três gostamos de criar a mesma música e temos a química certa para o fazer, mas o mais importante é a nossa relação pessoal. Há respeito e acima de tudo há bom ambiente. Grande parte do tempo o nosso principal objetivo é ver quem vai dizer a melhor piada e não o melhor riff de guitarra.” O que tornou os Rush intactos, todos estes anos, foi o sentido de humor dos três elementos e um sólido sentido de missão.

Enquanto responsável por uma equipa, o que mais me motiva é saber que as pessoas com quem trabalho o fazem focadas na nossa missão conjunta e que o fazem felizes e divertidas. Só assim é que um projeto que à partida pareça menos entusiasmante e interessante possa ser relativizado e tornar-se numa ótima solução, super fixe de trabalhar. Não só para as pessoas que estejam envolvidas no projeto mas para toda a equipa. Dave Trott, conhecido copywriter, aconselha-nos a contratar pessoas que sejam mais habilitadas que nós. É uma máxima que sigo, mas junto outra: contrata pessoas que sejam mais divertidas que tu.

Uma equipa não se mede no número de elementos nem nos dados de um gráfico, uma equipa mede-se na atitude e na entrega. Mede-se na atitude para com um desafio, de querer superá-lo e nessa busca superar-se a si própria. Um objetivo conjunto, puxando uns pelos outros, sintonizados numa crença que a leva a ver onde para muitos só existe escuridão. Mede-se na sua entrega, não para com o trabalho em mãos, mas para com as outras pessoas. Um bom trabalho não faz uma boa equipa, mas uma boa equipa faz sempre bom trabalho.

Podemos não ter nenhuma fórmula de sucesso mas temos as nossas ideologias, crenças e atitude. É com este nosso sentido de missão alinhado com a equipa que vamos continuar sólidos. Contudo é uma solidez frágil se não envolver uma equipa de pessoas felizes, com o mood certo, e com um bom sentido de humor.

Chegamos todos os dias aos mesmos lugares e passamos as horas a encontrar soluções criativas e adequadas aos desafios que os nossos clientes nos confiam, é uma missão digna e que muito nos orgulha, mas sinceramente, para a equipa, no fim do dia ganha quem tiver a melhor piada.