Branding e ilustração

Será melhor iniciar este texto com uma breve salvaguarda em relação ao tema da Ilustração, que será aqui entendida como a capacidade de dar uma forma gráfica e concreta a uma narrativa específica. Isto é aliás algo que partilha com o pensamento do designer, na medida em que a ilustração é também ela elaborada em função de um programa ou finalidade. A ligação entre os dois modos de pensamento é estreita, e se não é evidente mais vezes, deve-se ao facto de, no esforço de legitimar e dar a conhecer estas disciplinas, se optar por uma catalogação sistemática que nem sempre deixa espaço para todas as possibilidades de interação entre as duas. Este programa (ou objetivo) que partilham pode ser puramente prático e informativo (infográfico) ou então pode apelar a um lado mais emocional, para o qual o ilustrador tem a capacidade de enriquecer exponencialmente o projeto em questão.

Dada a componente narrativa que a Ilustração exige, pode-se dizer que esta é também necessariamente tangente ao trabalho do copy. Segundo Lipovetsky já não existe atualmente o conceito de copy strategy por repetição de um valor da marca, mas existe antes uma visão de “publicidade criativa”. Neste registo pretende-se “distrair, criar uma relação de convivência”, “valorizar um modo de vida ou imaginário” ou “criar um estilo”, entre outros. Lipovetsky afirma ainda que esta ideia de construção do copy tem Holywood como modelo e referencial, já que projeta uma história que de alguma forma se quer associar à própria narrativa do consumidor final.

A Ilustração pode então dividir-se em duas vertentes na construção de uma marca. Por um lado pode, a partir de poucos recursos técnicos e económicos, construir um imaginário elaborado que transcende muitas vezes as possibilidades reais (e financeiras) de um projeto. Nesta linha, a Ilustração apresenta ainda a vantagem de poder ser adaptada, em termos estéticos, ao público, dirigindo-se diretamente aos seus gostos e falando de uma forma eficiente e moldada ao seu entendimento.

A ilustração, na colaboração com a construção da marca, pode no entanto assumir ainda outra vertente. O ilustrador pode atualmente transcender a sua função técnica e transformar-se ele próprio numa marca. Assim, com uma identidade e um imaginário associados, ele enriquece o próprio universo da marca que a ele se associa. Neste caso o ilustrador (ou artista, já que aqui as fronteiras ainda se diluem mais) não desenvolve necessariamente uma narrativa especial para a marca, mas antes torna-se parte integrante dessa mesma narrativa, por se inserir nos valores que a marca almeja atingir. Como exemplo pode-se referir a aplicação das obras de Banksy ou do Keith Haring em peças de roupa ou então o recurso a ilustradores como Yoshitaka Amano para a construção de conceitos de videojogos. A adaptação do trabalho pode ser maior ou menor, inserindo-se numa colaboração criteriosamente construída ou então na aplicação direta de um trabalho já feito.

Seja qual for o caso, a Ilustração é uma ferramenta poderosa para construir, enriquecer ou alterar dramaticamente o rumo de uma marca, quer pela sua possibilidade de transmitir informação de uma forma direta e adequada a um público específico, ou então pela possibilidade de criar associações a estilos de vida e imaginários específicos, de outra forma inacessíveis.